Para muitas pessoas, aquilo que não tem mais utilidade se resume em – LIXO – e ponto final. Toda dia milhares de toneladas de lixo é posto fora sem a menos culpa ou peso na consciência, afinal lixo é lixo.
No Brasil cada habitante produz em média
Voltando a história do destino final do lixo. A maioria das pessoas não faz idéia de onde vai para o lixo que produz, sabe apenas que o caminhão da coleta de lixo passa e o leva. Do outro lado da cidade o casal Ida e Alfredo Pitton, com respectivamente 78 e 81 anos, fazem desse lixo sem serventia uma arte linda de se ver.
O casal de idosos morou boa parte de suas vidas no interior de Frederico Westphalen, há quinze anos decidiu trocar a vida dura do campo pela comodidade da cidade. Seu Alfredo agricultor aposentado estava ficando velho demais para a lida no campo,dona Ida tinha a preocupação de que algo de ruim acontecesse à saúde do marido já que a principal produção da família no campo era a de fumo, e assim o casal optou por passar a morar na cidade.Com a mudança a maior preocupação do casal era como se ocupar na cidade, já que estavam acostumados com uma vida movimentada e de muito trabalho. A saída encontrada por dona Ida e seu Alfredo foi fazer artesanato com materiais simples e recicláveis que eles tinham em casa, assim surgiu a paixão pelo artesanato. A primeira peça, feita a mais de quinze anos, permanece intacta na casa do casal, cortinas feitas com anéis de plástico de garrafas pets.
Depois de alguns cursos para se especializar, hoje eles trabalham com todo material que encontram garrafas pets, tampinhas, papéis, latas de tinta, tudo vira arte na mão do casal. As idéias e os trabalhos delicados como finalizações em costura, tricô e crochê vêm de dona Ida enquanto seu Alfredo se encarrega da parte pesada da confecção, como, corte dos litros e tudo que envolva força física.Como a idade não os deixa sair pelas ruas procurando materiais para trabalharem, dona Ida conta que eles chamam as crianças de rua e trocam balas e doces por litros descartáveis. “Eles vêm aqui e nos trazem os litros que acham pela rua, em troca a gente dá a eles doces e balas, eles ficam bem felizes com isso e a gente junta matéria prima, porque para fazer, por exemplo, uma bolsa de garrafa pet precisa-se de 18 garrafas, vai bastante material”
Na casa de dona Ida e seu Alfredo nada se perde, tudo se transforma. As peças que o casal produz sempre que possível são comercializadas, principalmente em épocas de Natal e na Páscoa, onde a procura por arranjos, guirlandas e pinheirinhos cresce, tudo produzido é claro, com materiais recicláveis. O valor das peças varia entre 10 reais em pequenos arranjos, até 60 reais em vasos de flores artificiais feitas com papel EVA, lata de tinta usada e acabamento em crochê. “As vezes tem peças que demoram até dois dias para ficar prontas, é bastante trabalho. Tem meses que a gente vende mais e tem meses que vende menos, sempre depende da época, mas a procura é grande, as pessoas vem aqui em casa conhecer nosso trabalho” diz o agricultor aposentado.
O casal que trabalha unido sabe muito bem da importância de reciclar, e lembram que os litros de pet ao invés de estarem entupindo bueiros e sujando os rios, se tornam artigos de decoração e ocupação para eles. “Posso dizer que o artesanato mudou minha vida, se estou sem fazer nada, estou pensando no que poderia fazer de diferente e criar novas peças” diz Dona Ida, que espalha na cama com orgulho suas últimas peças produzidas.
“Cata papelão Latinha, sujeira cata lixo,cata lixo, emoção
A vida que escapa da mão
A vida é um pedaço no chão” (Catador de lixo – Guerreiro Silva)
Mas não são apenas de ações isoladas que vive o mundo da arte feita com matérias recicláveis
Segundo a coordenadora do projeto Idoli Crespan, 59 anos, a idéia principal da ONG é qualificar a mão de obra dessas mulheres e passar a elas conhecimentos para que possam depois sozinhas, se incluir no mercado e se sustentar a partir do artesanato. As peças são vendidas e os lucros são remetidos às comunidades e pessoas envolvidas, em forma de investimentos e produtos.
Todo o trabalho realizado no projeto é voluntário, são pessoas que oferecem um pouco do seu tempo para transformar a vida de outras pessoas. Idoli Crespan diz que cerca de 200 de famílias estão envolvidas na ONG entre beneficiados e colaboradores. Uma destas pessoas que doam algumas horas vagas do seu tempo para ajudar a outras pessoas é o decorador Altemir Bisolin que utiliza a arte como possibilidade para materiais recicláveis.
Na sede da ONG é possível encontrar várias peças produzidas na oficina de artesanato, mas também encontramos histórias de pessoas que tiveram sua vida transformada pelo projeto como a de Venilda Anselmo, 41 anos, que há 6 anos começou a participar das oficinas, quando chegou até a ONG estava com depressão, mas ela conta que depois mudou tudo em sua vida, ali naquela esquina ela conseguiu superar a doença, “gostei e não consigo ficar um dia sem estar aqui”. Venilda trabalha voluntariamente na sede do projeto cinco dias por semana , já participou de tudo o que é oferecido ali desde oficinas de alimentação e a do próprio artesanato, sua renda mensal vem da venda de sabão que ela aprendeu a confeccionar ali mesmo no projeto.
A variedade de produtos confeccionados a partir do de materiais recicláveis é gra
nde, de uma forma muito criativa pneus viram um lindo puff, garrafas pets viram vasos de flores, retalhos de tecidos viram tapetes e lixo vira artigo de luxo e cidadania.
Segundo a coordenadora do projeto uma idéia bastante presente na oficina é reciclar também materiais encontrados na natureza como folhas secas, sementes, cipós e fibra de árvores. Porém iniciativas como esta da ONG Esquina da Solidariedade e do casal Pitton reciclam muto mais do que materiais sem utilidades, reciclam também histórias de vida transmitindo idéias como cidadania e cuidado com o meio ambiente por onde passam. O benefício não é apenas para quem aprende, mas também para quem ensina e quem adquire peças produzidas com materiais recicláveis. Leva-se para casa ensinamentos básicos como solidariedade, cidadania e consciência ambiental juntamente com um artigo de lixo luxuoso.
Um incentivador
Eveline Poncio e Bruna Wandscheer
Esta reportagem na íntegra você confere na Revista Meio Mundo - fica aqui o link para a versão digital da revista.
Está no Scribd: http://www.scribd.com/doc/18184808/Meio-Mundo-20090806aWeb
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